Naufrágio do Novo Amapá completa 45 anos e segue como ferida aberta na história amazônica

O dia 6 de janeiro marca um dos episódios mais dolorosos da história da navegação na Amazônia. Há 45 anos, em 1981, o então Território Federal do Amapá foi tomado pelo choque e pelo luto após o naufrágio da embarcação Novo Amapá, considerado até hoje o maior desastre fluvial já registrado na região e um dos mais graves do país em número de vítimas.
A tragédia ocorreu durante uma viagem que ligaria o Porto de Santana ao distrito de Monte Dourado, no município de Almeirim, no Pará. O barco deixou Santana no início da tarde, mas jamais chegou ao destino. Cerca de seis horas após a partida, a embarcação tombou e afundou nas proximidades da foz do rio Cajari, nas imediações de Laranjal do Jari, no extremo sul do então território amapaense.

O número exato de mortos nunca foi oficialmente determinado. Investigações e relatos da época apontam que o Novo Amapá navegava em condições precárias, transportando muito além de sua capacidade. Embora estivesse registrado para cerca de 150 passageiros, estima-se que mais de 600 pessoas estivessem a bordo, além de uma grande quantidade de carga, fator que contribuiu decisivamente para o naufrágio.
A falta de controle sobre a quantidade de passageiros dificultou o trabalho de resgate e a contabilização das vítimas. Corpos foram encontrados dias depois, outros jamais foram localizados, levados pela correnteza dos rios amazônicos. Em Santana, o impacto foi imediato: o sistema funerário entrou em colapso. Muitos mortos precisaram ser enterrados em vala comum, e caixões foram produzidos às pressas diante da escassez de urnas funerárias.
A dimensão da tragédia ultrapassou fronteiras e ganhou repercussão internacional, sendo noticiada por veículos da imprensa estrangeira, entre eles o jornal norte-americano The New York Times.
Apesar da gravidade do ocorrido, o episódio permanece marcado pela impunidade. Anos após o naufrágio, a embarcação foi recuperada por um dos proprietários e voltou a operar. Até hoje, não há registros de indenizações pagas aos sobreviventes ou às famílias das vítimas, tampouco de responsabilização criminal pelos fatos.
Passadas mais de quatro décadas, o naufrágio do Novo Amapá continua sendo lembrado como um símbolo de negligência, desrespeito às normas de segurança e descaso com a vida humana, deixando uma cicatriz profunda na memória coletiva do Amapá e da Amazônia.




